Sistema MNS: o que você precisa saber na prática transfusional

Assim como o sistema Rh, o Sistema MNS também é um dos mais complexos da imunogenética eritrocitária. Com mais de 40 antígenos descritos, ele envolve questões clínicas importantes, efeitos de dose, destruição enzimática e fenótipos raros — tudo isso impactando diretamente a segurança transfusional.

Neste artigo, destacamos os pontos mais relevantes do sistema MNS para a rotina dos bancos de sangue e mostramos como o uso adequado de antissoros confiáveis é essencial para garantir precisão na fenotipagem.

Principais antígenos: M, N, S, s e U

Embora o sistema MNS seja composto por dezenas de antígenos, os quatro principais na prática clínica são M, N, S e s. Além deles, o antígeno U se destaca por ser de alta frequência: está presente em praticamente todas as pessoas, exceto uma minoria com ancestralidade africana.

Curiosidade:

  • O antígeno U está presente em quase todos os indivíduos.
  • Pessoas U negativas são extremamente raras e sempre apresentam o fenótipo S-s-.
  • A frequência de U negativo é de cerca de 1% entre afro-americanos e pode chegar a 33% entre africanos.

Encontrar sangue compatível para um paciente com anti-U pode ser um verdadeiro desafio.

Destruição enzimática: um fator laboratorial importante

Os antígenos M, N, S e s são geralmente sensíveis à ação de enzimas como papaína, bromelina ou ficina. Ou seja, hemácias tratadas com enzimas costumam perder esses antígenos, o que pode ser útil na investigação de misturas de anticorpos.

Atenção: os antígeno S e s pode apresentar variabilidade na resistência enzimática, o que exige cautela na interpretação dos resultados.

Anti-M e anti-N: quando são clinicamente significantes?

O anti-M é um anticorpo que pode ocorrer naturalmente, sem exposição prévia a transfusão ou gestação. Costuma ser:

  • Do tipo IgM, reagindo em temperaturas ambientes ou mais frias;
  • Mais comum em crianças e em situações de infecções bacterianas;
  • Em 50% a 80% dos casos, pode coexistir com frações de IgG.

Se o anti-M não reage a 37 °C, ele não é considerado clinicamente significante e não exige fenotipagem obrigatória — desde que a prova cruzada esteja negativa. Mas se reagir a 37 °C, a fenotipagem do doador é indispensável.

O mesmo vale para o anti-N, embora ele seja menos comum.

Efeito de dose: por que os anticorpos reagem de forma diferente?

Os anticorpos anti-M e anti-N apresentam um fenômeno chamado efeito de dose. Eles reagem com mais intensidade quando encontram hemácias que expressam o antígeno em dose homozigótica (ex: M+N-), e podem nem reagir com hemácias M+N+.

Essa reação pode ser potencializada com:

  • Aumento do tempo de incubação;
  • Uso de potencializadores como PEG (polietilenoglicol).

Anti-M e o pH: um detalhe que faz diferença

Alguns anti-M têm reatividade dependente do pH, reagindo melhor em meio mais ácido (pH 6.5).
Por isso, podem ser detectados no plasma (mais ácido devido ao anticoagulante), mas não no soro. Um detalhe que pode passar despercebido, mas é fundamental em investigações sorológicas complexas.

Anti-Nf: um achado curioso em pacientes renais

Pacientes em hemodiálise com formaldeído podem desenvolver um anticorpo chamado anti-Nf. Ele ocorre porque o formaldeído altera os antígenos MN das hemácias, fazendo com que o sistema imune os reconheça como estranhos.O anti-Nf costuma desaparecer após o fim do tratamento com formaldeído.

Anti-S e anti-s: mais raros, mas mais perigosos

Diferente dos anticorpos MN, os anti-S e anti-s são geralmente:

  • Do tipo IgG;
  • Clinicamente significantes, com reatividade a 37 °C;
  • Associados a reações transfusionais severas.

O efeito de dose também existe, mas é menos marcante.
A hemácia transfundida deve ser fenotipada e ter prova cruzada negativa, sempre que esses anticorpos forem detectados.

Frequência populacional: quando o estoque complica

  • É relativamente fácil encontrar hemácias S negativas.

  • Já encontrar hemácias s negativas é um desafio:

    • Apenas 11% dos caucasianos e 3% dos afrodescendentes apresentam esse fenótipo.

Essa baixa frequência torna o anti-s clinicamente relevante e logisticamente delicado para os serviços de hemoterapia.

Antissoros Martell: precisão para cada detalhe

Na rotina laboratorial, a detecção segura e confiável dos antígenos do sistema MNS depende da qualidade dos reagentes utilizados. A Martell oferece antissoros monoclonais com alta especificidade e estabilidade, desenvolvidos para a prática clínica:

Os reagentes Grifols/Martell foram desenvolvidos para proporcionar resultados consistentes, mesmo em situações desafiadoras como efeitos de dose, variações de pH e reações sorológicas fracas.

Conclusão

O sistema MNS, apesar de muitas vezes subestimado, carrega diversos desafios clínicos e laboratoriais. Reconhecer suas nuances é essencial para garantir transfusões seguras e assertivas.

Com o apoio de reagentes confiáveis e bem padronizados, como os antissoros da Martell, os profissionais de laboratório ganham mais precisão para atuar com segurança, mesmo nas situações mais complexas.

 

Referencias

American Association of Blood Banks. Technical Manual. 20th ed. Bethesda (MD): AABB; 2020.

Harmening DM. Modern Blood Banking and Transfusion Practices. 7th ed. Philadelphia: F.A. Davis Company; 2019.