Sistema Lewis

Na imuno-hematologia, alguns sistemas de grupos sanguíneos são lembrados imediatamente pelo risco transfusional, como ABO, Rh, Kell, Duffy, Kidd e MNS. Outros aparecem com menos dramaticidade, mas ainda assim exigem raciocínio técnico. O sistema Lewis é um desses casos.

Ele costuma ser visto como um sistema de menor importância clínica na transfusão, mas isso não significa que possa ser ignorado. Na prática do banco de sangue, anticorpos Lewis podem aparecer na pesquisa de anticorpos irregulares, gerar reatividade em painel, causar dúvidas na interpretação e, em situações raras, estar associados a reações transfusionais.

Por isso, entender o sistema Lewis ajuda a evitar dois extremos: supervalorizar um anticorpo geralmente pouco significativo ou desconsiderar uma reatividade que precisa ser investigada com atenção.

O que é o sistema Lewis?

O sistema Lewis é diferente de muitos outros sistemas eritrocitários porque seus antígenos não são produzidos diretamente pela hemácia. Eles são formados nos tecidos, principalmente em secreções e fluidos corporais, circulam no plasma e depois são adsorvidos passivamente na membrana das hemácias. Por isso, a expressão dos antígenos Lewis na hemácia pode variar ao longo da vida e em algumas condições fisiológicas.

Os principais antígenos de interesse na rotina imuno-hematológica são o Leᵃ e o Leᵇ. Embora o sistema Lewis tenha outros antígenos reconhecidos, Leᵃ e Leᵇ são os mais encontrados na prática laboratorial.

A expressão desses antígenos depende principalmente da interação entre dois genes: FUT3, conhecido como gene Lewis, e FUT2, conhecido como gene Secretor. A ISBT classifica o sistema Lewis como o sistema 007 e descreve essa relação entre os genes Lewis e Secretor na formação dos fenótipos.

Lewis tem relação com o status secretor

Uma das partes mais interessantes do sistema Lewis é que ele conversa diretamente com o conceito de secretor e não secretor.

De forma simples:

Quem possui o gene Lewis funcional, mas não possui gene Secretor funcional, tende a expressar o fenótipo Le(a+b−).

Quem possui gene Lewis funcional e gene Secretor funcional tende a expressar o fenótipo Le(a−b+).

Quem não possui gene Lewis funcional tende a ser Le(a−b−), independentemente de ser secretor ou não.

Na prática, isso significa que o fenótipo Lewis não depende apenas de “ter ou não ter” um antígeno na hemácia. Ele depende de uma interação genética e bioquímica que acontece fora da própria hemácia. É por isso que Lewis é um sistema tão peculiar dentro da imuno-hematologia.

Por que os antígenos Lewis podem mudar?

Como os antígenos Lewis são adsorvidos na membrana da hemácia a partir do plasma, eles podem sofrer alterações em algumas fases da vida e em algumas condições clínicas.

Recém-nascidos, por exemplo, geralmente não expressam bem os antígenos Lewis nas hemácias. A expressão vai se desenvolvendo com o tempo. Além disso, durante a gestação, é relativamente comum que mulheres apresentem redução transitória da expressão Lewis e possam ser fenotipadas como Le(a−b−) naquele período.

Isso explica por que anticorpos Lewis podem aparecer em gestantes sem que isso tenha, na maioria das vezes, grande repercussão clínica. Muitas vezes, trata-se de uma alteração transitória do padrão de expressão antigênica.

E os anticorpos Lewis?

Os anticorpos mais comuns do sistema são o anti-Leᵃ e o anti-Leᵇ. Eles geralmente são anticorpos naturais, ou seja, podem aparecer sem transfusão ou gestação prévia. Na maioria das vezes, são da classe IgM, reagem melhor em temperatura ambiente e costumam ter pouca ou nenhuma importância clínica transfusional.

Isso acontece por alguns motivos.

Primeiro, muitos anticorpos Lewis não reagem bem a 37 °C ou na fase de antiglobulina humana. Segundo, as substâncias Lewis presentes no plasma podem neutralizar parte desses anticorpos. Terceiro, as hemácias transfundidas podem perder antígenos Lewis do doador e adquirir o padrão Lewis do receptor ao longo da circulação.

Por isso, quando o anticorpo Lewis é a única especificidade identificada e não demonstra comportamento clinicamente significativo, muitas recomendações não exigem a seleção de unidades antígeno-negativas. Em geral, a conduta é fornecer hemácias compatíveis na prova cruzada em AGH (antiglobulina humana) a 37 °C. As diretrizes britânicas de compatibilidade transfusional, por exemplo, classificam anti-Leᵃ, anti-Leᵇ e anti-Leᵃᵇ como anticorpos sem provável significado clínico transfusional, recomendando unidades compatíveis em AGH a 37 °C.

Então Lewis nunca causa problema?

Aqui está o ponto importante: geralmente não, mas raramente pode causar.

Embora os anticorpos Lewis sejam tradicionalmente considerados pouco significativos, existem relatos na literatura de anti-Leᵃ e anti-Leᵇ associados a reações hemolíticas, especialmente quando apresentam reatividade a 37 °C, capacidade de ativar complemento ou comportamento mais intenso nas fases clinicamente relevantes do teste. Estudos e relatos recentes reforçam que, apesar de incomum, a significância clínica deve ser avaliada caso a caso.

Portanto, a mensagem prática não é “Lewis não importa”. A mensagem correta é: Lewis geralmente tem baixa significância clínica, mas a interpretação depende do padrão de reatividade, da fase do teste, da temperatura, da história transfusional e do contexto do paciente.

Lewis e doença hemolítica fetal/neonatal

Outro ponto que costuma gerar dúvida é a gestação.

Os anticorpos Lewis, por serem geralmente IgM, não atravessam a placenta de forma significativa. Além disso, os antígenos Lewis são pouco desenvolvidos nas hemácias fetais e neonatais. Por isso, os anticorpos Lewis não são considerados causa importante de doença hemolítica fetal/neonatal.

Na rotina, isso ajuda a diferenciar Lewis de sistemas como Rh, Kell, Duffy e Kidd, que podem ter maior relevância em contexto gestacional e transfusional.

Como o sistema Lewis aparece na bancada?

Na rotina do laboratório de imuno-hematologia, os anticorpos Lewis podem aparecer como reatividade em pesquisa de anticorpos irregulares ou no painel de identificação.

Muitas vezes, a reatividade é mais evidente em temperatura ambiente, fase salina ou métodos mais sensíveis à IgM. Pode haver padrão compatível com anti-Leᵃ, anti-Leᵇ ou mistura de especificidades. Em alguns casos, o painel pode parecer confuso se o profissional não observar bem a fase de reação, a força das reações e a distribuição dos antígenos nas células testadas.

Por isso, diante de uma suspeita de anticorpo Lewis, é importante olhar para alguns pontos:

A reatividade aparece a 37 °C?

Reage na fase de antiglobulina humana?

Há histórico transfusional recente?

Existe outro aloanticorpo clinicamente significativo escondido?

A prova cruzada em AGH a 37 °C é compatível?

Essas perguntas ajudam a evitar interpretações precipitadas.

O risco de parar no “é só Lewis”

Um cuidado importante na bancada é não encerrar a investigação cedo demais.

Às vezes, um anti-Leᵃ ou anti-Leᵇ pode estar presente, mas não ser o único anticorpo. O problema é quando a reatividade Lewis chama muita atenção e acaba mascarando outro aloanticorpo de maior importância clínica.

Por isso, mesmo quando o padrão sugere Lewis, o raciocínio imuno-hematológico deve continuar: avaliar autocontrole, histórico transfusional, fenótipo do paciente, padrão do painel, fase de reação e possibilidade de anticorpos associados. Lembre-se sempre de excluir outras possibilidades!

Na prática, o Lewis pode ser o “barulho” do painel, mas o profissional precisa garantir que não exista um anticorpo clinicamente significativo por trás desse barulho.

E na escolha da bolsa?

De modo geral, quando o paciente apresenta apenas anti-Leᵃ ou anti-Leᵇ sem comportamento clinicamente significativo, a literatura e diretrizes de compatibilidade indicam que não é necessário selecionar bolsas Leᵃ-negativas ou Leᵇ-negativas. O mais importante é que as unidades sejam compatíveis na prova cruzada em AGH a 37 °C.

Mas se o anticorpo reage a 37 °C, apresenta comportamento compatível com significância clínica ou está associado a reação transfusional, a conduta deve ser individualizada e discutida conforme os protocolos do serviço e, quando necessário, com laboratório de referência.

Isso é especialmente importante em pacientes politransfundidos, pacientes com histórico de reação transfusional ou em casos em que a investigação sorológica não está clara.

Por que estudar Lewis?

Porque o sistema Lewis ensina algo essencial na imuno-hematologia: nem todo anticorpo positivo tem o mesmo peso clínico.

Alguns anticorpos exigem sangue antígeno-negativo e condutas rigorosas. Outros, como os Lewis na maioria das situações, exigem principalmente boa interpretação, correlação com a fase do teste e escolha segura de unidades compatíveis.

Saber essa diferença evita atrasos desnecessários, reduz solicitação de fenótipos que não são imprescindíveis, melhora o uso do estoque e aumenta a segurança do paciente.

Conclusão

O sistema Lewis é peculiar porque seus antígenos não nascem na hemácia: eles são formados em secreções e adsorvidos à membrana eritrocitária. Essa característica explica por que sua expressão pode variar e por que seus anticorpos, na maioria das vezes, têm comportamento diferente dos aloanticorpos mais clássicos da transfusão.

Na rotina, anti-Leᵃ e anti-Leᵇ geralmente são IgM, reagem melhor em temperaturas mais baixas e raramente têm grande impacto clínico. Ainda assim, não devem ser ignorados. O profissional precisa avaliar fase de reação, temperatura, intensidade, contexto clínico e possibilidade de outros anticorpos associados.

Na rotina da imuno-hematologia, o sistema Lewis mostra que nem todo anticorpo tem o mesmo peso clínico, mas toda reatividade merece ser interpretada com método. Entender a fase da reação, a temperatura, o comportamento do anticorpo e o contexto do paciente é essencial para tomar decisões seguras e evitar atrasos desnecessários na liberação transfusional.

E, para que essa interpretação aconteça com qualidade, o laboratório precisa contar não apenas com conhecimento técnico, mas também com uma rotina bem estruturada, insumos adequados, processos padronizados e soluções que apoiem o trabalho da equipe.

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Referências

International Society of Blood Transfusion — ISBT. Red Cell Immunogenetics and Blood Group Terminology: Lewis Blood Group System — 007.

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