O plasma fresco congelado (PFC) é a porção acelular do sangue, rica em proteínas plasmáticas e fatores de coagulação (como fatores dependentes de vitamina K, fibrinogênio e outros), obtida do sangue total ou por aférese e congelada rapidamente para preservar a atividade dos fatores.
Como o PFC é obtido?
O PFC pode ser produzido:
- A partir do sangue total: após centrifugação e transferência do plasma em sistema fechado para bolsa satélite.
- Por aférese: coleta direta do plasma do doador, com devolução dos demais componentes.
Pela regulamentação brasileira, o PFC deve ser totalmente congelado por processo validado, idealmente em até 8 horas e no máximo em 24 horas após a coleta.
Como deve ser armazenado?
O PFC deve permanecer congelado em freezer apropriado. No Brasil, recomenda-se armazenamento no mínimo a −18 °C, sendo preferível ≤ −25 °C. A validade varia com a temperatura:
- −18 °C a −25 °C: em geral 12 meses
- temperaturas mais baixas (ex.: ≤ −25 °C / ≤ −30 °C, conforme prática institucional): pode chegar a 24 meses, dependendo do protocolo adotado.
(Obs.: prazos específicos podem variar por serviço/validação local e normativas internas.)
Para que o PFC é utilizado?
O PFC é indicado principalmente para reposição de múltiplos fatores de coagulação quando há coagulopatia clinicamente relevante, sobretudo em contexto de sangramento (ou risco alto de sangrar) e quando não há alternativa mais específica disponível. Exemplos:
- sangramento com deficiência de múltiplos fatores (ex.: hepatopatia, CIVD, coagulopatia dilucional)
- transfusão maciça/hemorragia grave
- plasmaferese (troca de plasma) na Púrpura Trombocitopênica Trombótica (PTT/TTP) (fluido de reposição de primeira linha em muitos protocolos)
Descongelamento do PFC: métodos, tempos e cuidados
1) Banho-maria (método tradicional)
O descongelamento pode ser feito em banho-maria entre 30 °C e 37 °C, com a bolsa protegida (ex.: invólucro/overwrap) para reduzir risco de contaminação externa.
Tempo típico: costuma levar cerca de 20 a 40 minutos, variando conforme volume da bolsa, quantidade de unidades no banho e temperatura inicial.
Cuidados essenciais no banho-maria
- Garantir temperatura controlada (não exceder o recomendado).
- Usar proteção plástica da bolsa para evitar contato/contaminação.
- Evitar “pontos quentes” e manipulação excessiva que aumente risco de microfissuras.
- Manter rotina de higienização e troca de água conforme POP (banho-maria é um ponto crítico para contaminação cruzada se mal manejado).
2) Descongelamento automatizado (ex.: Plasmatherm)
Descongeladores automatizados como o Barkey Plasmatherm trabalham com controle preciso de temperatura e agitação, padronizando o processo e reduzindo variabilidade operacional. Informações do fabricante descrevem tempos de descongelamento “ice-free” que variam por temperatura do programa e número de bolsas.
Tempo típico (referência do equipamento)
- Em 37 °C, uma bolsa pode ficar pronta em ~9 a 14 minutos (dependendo do modelo/programa) e múltiplas bolsas em tempos na faixa de ~9,5 a 19,5 minutos.
- Há materiais do fornecedor citando descongelamento “em torno de 7 minutos” em determinados cenários/tecnologias e configurações.
Enquanto o banho-maria frequentemente fica na faixa de 20–40 min, sistemas automatizados costumam reduzir para algo como ~7–15 min em muitos cenários, com maior padronização (o tempo real depende do volume, número de bolsas e do programa).
Após descongelar: como conservar e qual o prazo para transfundir?
De forma geral, após descongelado, o PFC deve ser transfundido o mais breve possível. Se não for usado imediatamente, pode ser mantido refrigerado, respeitando o prazo institucional.
Diretrizes e manuais usados em hemovigilância/rotina descrevem:
- até 6 horas após descongelamento se mantido em temperatura ambiente controlada (≈ 22 ± 2 °C)
- até 24 horas se mantido refrigerado a ≈ 4 ± 2 °C (faixa prática 2–6 °C)
✅ Pode ficar em geladeira? Sim — se houver atraso, manter em 2–6 °C, dentro do prazo previsto (com rastreabilidade e POP).
🚫 Recongelar? Em geral, não se recongela PFC após descongelamento para uso transfusional — a conduta é seguir o prazo de uso e, se excedido, descartar conforme POP. (Essa prática é consistentemente reforçada em rotinas de serviços e documentos de hemovigilância.)
Referências bibliográficas
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). RDC nº 34, de 11 de junho de 2014.
- ANVISA. Manual técnico de hemovigilância: investigação das reações transfusionais imediatas e tardias não infecciosas (orientações sobre conservação/transfusão pós-descongelamento).
- Ministério da Saúde (Brasil). Guia para o uso de hemocomponentes (definições e recomendações gerais).
- British Society for Haematology (BSH). Guidelines on the spectrum of fresh frozen plasma.