Da veia à bolsa: por que os leucócitos são considerados vilões silenciosos da transfusão

Na nossa série “Da veia à bolsa”, começamos falando sobre como a escolha da bolsa de sangue influencia diretamente a qualidade do hemocomponente. Mas, uma vez que o sangue é coletado, existe outro fator que passa muitas vezes despercebido, e que pode impactar significativamente a segurança transfusional: os leucócitos.

À primeira vista, eles parecem apenas mais um componente do sangue do doador. Mas, quando falamos em transfusão, esses glóbulos brancos podem se tornar vilões silenciosos.

O que os leucócitos fazem dentro da bolsa?

Quando o sangue é coletado, ele contém naturalmente três grandes tipos celulares:

  • hemácias
  • plaquetas
  • leucócitos 

O problema é que, na maioria das transfusões, os leucócitos não têm função terapêutica para o paciente. Pelo contrário: ao longo do armazenamento, eles podem desencadear uma série de eventos biológicos indesejados.

Durante o período em que o hemocomponente permanece armazenado, os leucócitos podem:

  • liberar citocinas inflamatórias
  • degradar componentes celulares
  • liberar enzimas e mediadores imunológicos
  • contribuir para alterações conhecidas como lesão de armazenamento 

Essas substâncias podem se acumular no hemocomponente e, posteriormente, chegar ao paciente durante a transfusão.

Reações transfusionais: quando os leucócitos entram em cena

A presença de leucócitos residuais está associada a diversas complicações transfusionais. Entre as mais conhecidas estão as reações febris não hemolíticas, caracterizadas por febre e mal-estar após a transfusão.

Essas reações são frequentemente desencadeadas por citocinas liberadas pelos leucócitos.

Mas os efeitos podem ir além.

Os leucócitos também estão relacionados a:

  • aloimunização contra antígenos HLA (anticorpos que quando produzidos podem desencadear TRALI – outra reação transfusional gravissima)
  • transmissão de vírus associados a células, como o CMV (citomegalovírus)
  • maior ativação inflamatória no paciente
  • possíveis impactos em desfechos clínicos em pacientes críticos 

Por isso, mesmo que não sejam o foco da transfusão, os leucócitos podem influenciar diretamente a resposta do organismo ao hemocomponente.

A solução: leucorredução

Para reduzir esses riscos, uma das estratégias mais importantes da hemoterapia moderna é a leucorredução.

Esse processo consiste na remoção da maior parte dos leucócitos presentes no hemocomponente, geralmente por meio de filtros específicos, capazes de reduzir a contagem de leucócitos para níveis muito baixos.

Quando realizada de forma adequada, a leucorredução pode diminuir significativamente:

  • reações febris não hemolíticas
  • aloimunização contra HLA
  • transmissão de CMV
  • acúmulo de mediadores inflamatórios durante o armazenamento 

Hoje, muitos países adotam a leucorredução universal, justamente pelos benefícios observados na segurança transfusional.

Por que fazer isso antes do armazenamento?

Um ponto importante é que a leucorredução pode ser realizada em diferentes momentos do processo. No entanto, quando feita precocemente, logo após a coleta, seus benefícios tendem a ser maiores.

Isso acontece porque a remoção precoce dos leucócitos reduz a liberação de citocinas inflamatórias durante o armazenamento do hemocomponente.

Em outras palavras: quanto antes os leucócitos são removidos, menor a chance de acumularem substâncias inflamatórias na bolsa.

O impacto para o paciente

Para quem recebe a transfusão, muitas dessas diferenças não são visíveis. O paciente vê apenas uma bolsa de sangue chegando ao leito.

Mas, por trás dessa bolsa, existem decisões técnicas que podem fazer grande diferença no resultado clínico.

Reduzir leucócitos significa:

  • menor estímulo inflamatório
  • menor risco de reações transfusionais
  • menor chance de aloimunização
  • maior segurança para pacientes vulneráveis 

E isso é especialmente importante para pacientes que recebem transfusões repetidas, como aqueles com doenças hematológicas ou com doença falciforme que são politransfundidos e já cronicamente inflamados.

Hemoterapia moderna é feita de detalhes

A segurança transfusional não depende de um único fator. Ela é construída ao longo de todo o processo — desde a coleta, passando pelo armazenamento, pelo processamento e pela realização dos testes laboratoriais.

A leucorredução é um exemplo claro de como um detalhe técnico pode ter impacto direto no cuidado com o paciente.

Por isso, discutir qualidade de hemocomponentes é também discutir processos, tecnologia e boas práticas em hemoterapia.

Onde entram as soluções nesse processo?

Quando falamos em segurança transfusional, estamos falando de uma cadeia de decisões técnicas que começa muito antes da transfusão acontecer.

A escolha da bolsa, o controle das condições de armazenamento, a remoção adequada de leucócitos e a qualidade dos processos dentro do serviço de hemoterapia são fatores que influenciam diretamente o resultado final para o paciente.

Nesse contexto, contar com soluções adequadas em cada etapa do processo faz diferença.

Desde bolsas de coleta e sistemas que permitem o processamento adequado do sangue, passando por filtros de leucorredução que ajudam a reduzir estímulos inflamatórios e riscos imunológicos, até reagentes e soluções de imuno-hematologia que garantem segurança na investigação laboratorial, cada elemento contribui para um processo transfusional mais seguro.

A Martell atua ao lado de bancos de sangue e laboratórios oferecendo soluções e suporte técnico para diferentes etapas da hemoterapia, sempre com foco em qualidade, segurança do paciente e boas práticas transfusionais.

Porque, em hemoterapia, muitas vezes os detalhes que não aparecem são justamente aqueles que mais protegem o paciente.

No próximo texto da série “Da veia à bolsa”, vamos falar sobre a produção e o fracionamento de hemocomponentes — o processo que transforma uma única doação de sangue em diferentes componentes terapêuticos utilizados diariamente nos hospitais.

 

Referências

AABB. Standards for Blood Banks and Transfusion Services.
Council of Europe. Guide to the Preparation, Use and Quality Assurance of Blood Components.
Vamvakas EC, Blajchman MA. Universal leukoreduction: the case for and against. Transfusion.
Hess JR. Red blood cell storage. Journal of Proteomics.
Hod EA et al. Transfusion of stored red blood cells and inflammation. Transfusion.
Yazer MH, Triulzi DJ. Detection of leukocyte antibodies and transfusion reactions. Hematology/ASH Education Program.