Da veia à bolsa: por que nem toda bolsa de sangue é igual?

Quando pensamos em transfusão, é comum que o foco esteja nos testes laboratoriais, na compatibilidade e na segurança imunológica. No entanto, existe um elemento fundamental, muitas vezes negligenciado na rotina: a bolsa de sangue. Longe de ser apenas um recipiente passivo, a bolsa é um sistema projetado para preservar a qualidade do hemocomponente desde a coleta até a transfusão — e suas características podem impactar diretamente esse processo.

A coleta de sangue é realizada em sistemas fechados, estéreis, contendo soluções anticoagulantes e, em muitos casos, soluções aditivas. Esses sistemas evoluíram significativamente ao longo das últimas décadas, permitindo não apenas a coleta segura, mas também o processamento eficiente dos hemocomponentes. Atualmente, as bolsas podem ser classificadas de acordo com sua configuração — simples, dupla, tripla ou quádrupla —, sendo cada uma projetada para diferentes estratégias de processamento e uso clínico.

As bolsas simples são utilizadas, de forma mais limitada, quando não há necessidade de fracionamento do sangue total. Já os sistemas duplos, triplos e quádruplos permitem a separação do sangue em seus diferentes componentes — concentrado de hemácias, plasma, crioprecipitado e plaquetas — por meio de centrifugação e transferência em sistema fechado. Esse detalhe é crucial, pois o sistema fechado reduz significativamente o risco de contaminação microbiológica e aumenta a validade dos componentes, especialmente das hemácias e do plasma.

Além da configuração física, outro aspecto central é a solução anticoagulante e aditiva presente na bolsa. Soluções como CPD, CPDA-1 e, mais recentemente, sistemas com soluções aditivas como SAGM (salina, adenina, glicose e manitol), desempenham papel fundamental na preservação das hemácias. Essas soluções permitem a manutenção do metabolismo celular, preservação da membrana eritrocitária e maior estabilidade durante o armazenamento. Com o uso de soluções aditivas, a validade do concentrado de hemácias pode chegar a até 42 dias, dependendo do sistema utilizado, sem comprometer critérios mínimos de qualidade estabelecidos por diretrizes internacionais.

Outro ponto importante é que nem todas as bolsas são iguais em termos de desempenho biológico. A composição do material plástico (geralmente PVC com plastificantes específicos), a permeabilidade ao oxigênio e a interação com o hemocomponente influenciam diretamente fenômenos conhecidos como lesão por estocagem, que incluem alterações bioquímicas e estruturais das hemácias ao longo do tempo. Estudos mostram que características do sistema de coleta e armazenamento podem impactar parâmetros como hemólise, deformabilidade eritrocitária e níveis de potássio extracelular, o que reforça a importância de escolher sistemas validados e de alta qualidade.

Nesse contexto, sistemas modernos também incorporam tecnologias adicionais, como filtros para leucorredução, que podem estar integrados à própria bolsa. A leucorredução pré-armazenamento é uma estratégia consolidada na literatura, associada à redução de reações transfusionais febris não hemolíticas, diminuição do risco de aloimunização e menor transmissão de agentes infecciosos intracelulares, como o citomegalovírus (Yazer & Triulzi, 2007; AABB, 2023). Quando realizada em sistema fechado e ainda na fase de processamento, essa etapa contribui para maior padronização e qualidade do hemocomponente final.

Nesse cenário, a escolha do sistema de bolsas também passa pela confiança no fornecedor e na padronização dos insumos utilizados no serviço. No Brasil, a Martell atua na distribuição de soluções para hemoterapia, incluindo diferentes configurações de bolsas da Macopharma, que permitem atender desde rotinas mais simples até serviços com maior nível de complexidade e processamento. A disponibilidade de sistemas variados — com diferentes configurações, soluções anticoagulantes e possibilidades de integração com etapas como leucorredução — contribui para que cada serviço possa estruturar seus processos de forma mais alinhada às suas necessidades operacionais e assistenciais. Mais do que uma escolha de produto, trata-se de garantir consistência, rastreabilidade e qualidade ao longo de toda a cadeia transfusional.

Na prática, entender que “nem toda bolsa é igual” significa reconhecer que decisões aparentemente simples — como o tipo de sistema utilizado na coleta — têm impacto direto na qualidade do hemocomponente e, consequentemente, na segurança do paciente. A escolha adequada da bolsa não é apenas uma questão logística, mas uma etapa estratégica dentro da cadeia transfusional.

Ao final, a bolsa deixa de ser um detalhe invisível e passa a ser reconhecida como parte ativa do cuidado. Porque, na hemoterapia moderna, qualidade não começa na transfusão — começa desde a coleta. E, muitas vezes, começa na escolha da bolsa.

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Referências

  • Carson JL, Guyatt G, Heddle NM, et al. Red Blood Cell Transfusion: 2023 AABB International Guidelines. JAMA. 2023.
  • AABB. Standards for Blood Banks and Transfusion Services. 33ª ed. Bethesda: AABB; 2023.
  • Council of Europe (EDQM). Guide to the preparation, use and quality assurance of blood components. 20ª ed. 2020.
  • Hess JR. Red cell storage. J Proteomics. 2010;73(3):368–373.
  • Zimring JC. Established and theoretical factors to consider in assessing the red cell storage lesion. Blood. 2015;125(14):2185–2190.
  • Yazer MH, Triulzi DJ. Detection of bacterial contamination in blood products. Transfusion Medicine Reviews. 2007.