A confiabilidade dos testes de imuno-hematologia começa muito antes da leitura de uma reação de aglutinação. Antes mesmo da primeira amostra ser processada, existe uma etapa indispensável para garantir resultados seguros e confiáveis: o controle de qualidade.
Testes como a tipagem ABO e RhD, a pesquisa e identificação de anticorpos irregulares (PAI e painel de hemácias), o teste da antiglobulina direta (TAD ou coombs direto) e a fenotipagem eritrocitária dependem diretamente do desempenho adequado dos reagentes utilizados. Alterações em sua qualidade podem reduzir a intensidade das reações, gerar resultados falso-positivos ou falso-negativos e comprometer decisões clínicas importantes.
Um equívoco bastante comum é acreditar que um reagente dentro do prazo de validade está, automaticamente, apto para uso. Entretanto, condições inadequadas de transporte, armazenamento, contaminação microbiológica ou falhas durante o manuseio podem comprometer seu desempenho muito antes da data de vencimento.
Por esse motivo, a legislação brasileira determina que os serviços de hemoterapia mantenham programas estruturados de controle de qualidade capazes de monitorar equipamentos, técnicas, equipe técnica e reagentes, além da participação obrigatória em programas de avaliação externa da qualidade. O objetivo é identificar precocemente desvios de desempenho, prevenir a liberação de resultados incorretos e promover ações corretivas sempre que necessário.
Esse conceito também é reforçado por organizações internacionais, como a Association for the Advancement of Blood & Biotherapies (AABB), que destacam o controle de qualidade como parte essencial da rotina dos laboratórios de imuno-hematologia.
Neste artigo, reunimos as principais recomendações da legislação brasileira e das boas práticas internacionais para apresentar um guia prático sobre o controle de qualidade dos reagentes utilizados na rotina imuno-hematológica.
Controle de qualidade: muito além dos reagentes
Embora os reagentes sejam componentes críticos da rotina laboratorial, um programa eficiente de controle de qualidade vai muito além da avaliação desses insumos.
Segundo o Manual de Imuno-Hematologia Laboratorial do Ministério da Saúde, quatro pilares devem ser monitorados continuamente: equipamentos, técnicas, equipe técnica e reagentes. Esses elementos atuam de forma integrada e pequenas falhas em qualquer etapa podem comprometer a confiabilidade dos resultados.
Na prática, um resultado incorreto pode estar relacionado a situações como:
- armazenamento inadequado dos reagentes;
- centrífugas descalibradas;
- preparo incorreto das suspensões de hemácias;
- variações na execução da técnica entre diferentes profissionais;
- utilização de reagentes deteriorados ou com perda de reatividade.
Por isso, o controle interno deve ser entendido como uma ferramenta permanente de monitoramento da rotina laboratorial, permitindo identificar desvios antes que eles interfiram na liberação dos resultados.
Entre seus principais objetivos estão:
- monitorar o desempenho de reagentes, equipamentos e metodologias;
- detectar alterações na estabilidade dos processos;
- prevenir resultados não conformes;
- subsidiar ações corretivas e preventivas;
- promover a melhoria contínua do laboratório.
O controle de qualidade começa antes da primeira amostra
Antes mesmo do início da rotina diária, alguns cuidados simples já reduzem significativamente o risco de falhas analíticas.
Todo reagente recém-recebido deve ser qualificado antes de ser liberado para uso. Além disso, recomenda-se que seja realizada uma inspeção visual diária para verificar se suas características permanecem preservadas.
Uma avaliação inicial deve incluir:
- conferência do lote e da data de validade;
- confirmação da temperatura de armazenamento;
- inspeção visual do conteúdo, verificando ausência de precipitados, turvação, hemólise, partículas ou crescimento fúngico;
- avaliação da integridade do frasco e do conta-gotas;
- conferência das orientações do fabricante, especialmente quando houver mudança de lote ou fornecedor.
Sempre que houver suspeita de transporte inadequado, quebra da cadeia de frio, armazenamento incorreto ou qualquer alteração visual do reagente, sua utilização deve ser suspensa até que uma nova avaliação seja realizada.
Quais reagentes devem ser monitorados?
Todo reagente que possa influenciar diretamente o resultado de um teste imuno-hematológico deve fazer parte do programa de controle de qualidade.
A tabela abaixo resume os principais reagentes utilizados na rotina e os parâmetros mínimos que devem ser monitorados. Aqueles utilizados em testes adicionais nas investigações de imuno-hematologia também devem ser monitorados e devidamente testados.
| Reagente | O que deve ser avaliado | Frequência mínima recomendada |
| Anti-A | Especificidade, reatividade e inspeção visual | Novo lote e monitoramento diário |
| Anti-B | Especificidade, reatividade e inspeção visual | Novo lote e monitoramento diário |
| Anti-AB | Especificidade, reatividade e inspeção visual | Novo lote e monitoramento diário |
| Anti-D | Especificidade, reatividade, reconhecimento de variantes e inspeção visual | Novo lote e monitoramento diário |
| Controle RhD | Ausência de aglutinação inespecífica | Novo lote e monitoramento diário |
| Reagente antiglobulina humana (AGH) | Reatividade utilizando hemácias sensibilizadas por IgG | Novo lote e monitoramento diário |
| Hemácias A1 e B (prova reversa) | Especificidade e reatividade | Cada novo lote e antes do uso conforme POP |
| Hemácias de triagem (PAI) | Integridade, fenótipo e reatividade | Cada novo lote e conforme rotina |
| Painéis de identificação | Integridade e perfil antigênico | Conforme fabricante e rotina |
| Soluções potencializadoras (LISS, PEG, enzimas etc.) | Integridade, armazenamento e desempenho | Conforme fabricante e validação interna |
Além da inspeção diária, a legislação brasileira recomenda que os reagentes sejam avaliados sempre que houver recebimento de um novo lote ou qualquer situação que possa comprometer seu desempenho.
Como validar um novo lote de reagentes?
Receber um novo lote não significa que ele pode ser incorporado imediatamente à rotina.
Antes da utilização em amostras de pacientes ou doadores, é necessário demonstrar que o reagente mantém as características de desempenho esperadas. Esse processo, conhecido como qualificação ou validação do lote, é uma etapa essencial do controle interno.
De forma geral, quatro parâmetros devem ser avaliados:
| Parâmetro | O que avalia |
| Especificidade | Confirma que o reagente reconhece apenas o antígeno para o qual foi desenvolvido. |
| Reatividade | Avalia a intensidade da reação obtida com amostras conhecidas. |
| Avidez | Mede a velocidade com que ocorre a reação entre antígeno e anticorpo. |
| Título e escore | Determinam a potência do reagente, quando aplicável. |
Por exemplo, um reagente anti-A deve reagir exclusivamente com hemácias que expressam o antígeno A e permanecer negativo quando testado frente a hemácias do grupo O. Da mesma forma, o anti-D deve apresentar intensidade de reação compatível com os critérios estabelecidos pelo fabricante e pelas recomendações técnicas vigentes.
Caso qualquer um desses parâmetros apresente desempenho inferior ao esperado, o lote não deve ser liberado para utilização até que a causa seja investigada.
Controle interno na prática: como monitorar o desempenho dos reagentes?
Depois que um lote é qualificado, o trabalho não termina. O desempenho dos reagentes deve ser acompanhado continuamente por meio de um programa de controle interno, utilizando amostras cujo comportamento já é conhecido.
O objetivo é simples: confirmar diariamente que reagentes, equipamentos e metodologias continuam apresentando o desempenho esperado antes da liberação dos resultados.
Esse monitoramento pode ser realizado utilizando materiais preparados pelo próprio laboratório ou controles comerciais validados, desde que exista rastreabilidade, padronização e registros adequados.
Controles preparados pelo próprio laboratório
Muitos serviços de hemoterapia utilizam hemácias previamente fenotipadas para monitorar seus reagentes. Trata-se de uma estratégia de baixo custo e amplamente empregada, mas que exige rigor durante o preparo, armazenamento e definição da validade desses materiais.
Independentemente da estratégia adotada, o laboratório deve garantir que os controles apresentem:
- fenótipo previamente confirmado;
- boa integridade eritrocitária;
- ausência de hemólise ou contaminação;
- identificação individual;
- estabilidade durante todo o período de utilização;
- registros de preparo, armazenamento e descarte.
Esses controles devem produzir resultados consistentes ao longo do tempo, permitindo identificar rapidamente qualquer alteração no desempenho dos reagentes.
Como preparar os principais controles internos?
A escolha do material-controle depende do teste que será monitorado.
Antissoros ABO
Para validar os reagentes anti-A, anti-B e anti-AB, utilizam-se hemácias com fenótipos conhecidos.
| Reagente | Controle positivo | Controle negativo |
| Anti-A | Hemácias A1 | Hemácias O |
| Anti-B | Hemácias B | Hemácias O |
| Anti-AB | Hemácias A1, B ou AB | Hemácias O |
O resultado esperado é que cada reagente reconheça exclusivamente o antígeno correspondente, permanecendo negativo frente às hemácias que não o expressam.
Anti-D
Para o controle do reagente anti-D recomenda-se utilizar:
- hemácia RhD positiva conhecida;
- hemácia RhD negativa conhecida;
- reagente controle RhD correspondente.
Essa combinação permite avaliar simultaneamente a reatividade do anti-D e excluir reações inespecíficas produzidas pelo diluente do reagente.
Hemácias reagentes
As hemácias utilizadas na classificação reversa e na pesquisa de anticorpos irregulares também fazem parte do controle interno.
As hemácias A1 devem reagir com plasma grupo B e permanecer negativas frente ao plasma AB. Da mesma forma, hemácias B devem reagir com plasma grupo A e não apresentar aglutinação com plasma AB.
Para as hemácias utilizadas na triagem de anticorpos irregulares, recomenda-se verificar periodicamente sua integridade e confirmar que continuam expressando os principais antígenos eritrocitários descritos pelo fabricante, incluindo sistemas como Rh, Kell, Kidd, Duffy, MNS, Lewis e Diego, podendo utilizar soro/plasma com anticorpos conhecidos.
Controles comerciais: maior padronização e rastreabilidade
Embora os controles preparados pelo próprio laboratório sejam amplamente utilizados, muitos serviços têm adotado controles comerciais para aumentar a padronização da rotina e reduzir a variabilidade entre operadores.
Esses materiais são produzidos sob condições controladas, apresentam fenótipos previamente caracterizados e passam por rigorosos processos de validação, proporcionando maior reprodutibilidade e rastreabilidade.
Além disso, facilitam auditorias, inspeções regulatórias e processos de acreditação, uma vez que possuem documentação completa referente ao lote, estabilidade e desempenho esperado.
Soluções comerciais para o controle interno
Os controles comerciais representam uma alternativa prática para laboratórios que buscam maior padronização, rastreabilidade e reprodutibilidade em seus programas de controle de qualidade. Desenvolvidos especificamente para monitorar o desempenho de reagentes, metodologias e equipamentos, esses materiais contribuem para a detecção precoce de desvios analíticos e para a padronização dos processos, tanto em sistemas manuais quanto automatizados.
Entre as soluções disponíveis, o Essencial II Control é um material-controle composto por duas amostras eritrocitárias com perfis sorológicos complementares, permitindo o monitoramento de diferentes etapas da rotina imuno-hematológica. O produto pode ser utilizado no controle de reagentes, procedimentos de trabalho e equipamentos empregados nas metodologias em gel, microplaca e tubo, tanto em sistemas manuais quanto automatizados.
Sua composição contempla uma amostra grupo A Rh(D) negativo, CDE negativo e Kell positivo, contendo anti-B e anti-D, e uma amostra grupo B Rh(D) positivo, CDE positivo, contendo anti-A e anti-Fya. Dessa forma, possibilita o controle da determinação dos antígenos ABO, Rh e Kell, da pesquisa dos anticorpos naturais do sistema ABO e da detecção de anticorpos irregulares pelas técnicas de antiglobulina humana e enzimática. Além disso, sua solução conservadora foi desenvolvida para preservar a integridade e a antigenicidade das hemácias durante o período de utilização.
Outra opção é o Extended IV Control, constituído por quatro amostras eritrocitárias prontas para uso, representando diferentes grupos sanguíneos e perfis sorológicos: grupo A Rh(D) negativo com anti-B e anti-D; grupo O Rh(D) positivo com anti-A e anti-B; grupo B Rh(D) positivo com anti-A e anti-K; e grupo AB Rh(D) positivo. O produto foi desenvolvido para o controle da tipagem ABO e Rh(D), além de auxiliar na verificação de reagentes, procedimentos de trabalho e instrumentos utilizados em sistemas manuais ou automatizados. Também pode ser empregado no controle dos testes de investigação de anticorpos irregulares, contribuindo para o monitoramento contínuo da rotina laboratorial.
Assim como o Essencial II Control, o Extended IV Control utiliza uma solução conservadora formulada para preservar a viabilidade, a integridade e a antigenicidade das hemácias, favorecendo a estabilidade do material durante seu período de utilização.
Independentemente da estratégia adotada, o aspecto mais importante é que o laboratório utilize materiais-controle adequadamente validados e mantenha um programa de controle interno capaz de demonstrar, de forma objetiva e documentada, que seus reagentes, metodologias e equipamentos permanecem aptos para uso.
Cinco erros que um bom programa de controle de qualidade ajuda a evitar
Embora muitas vezes seja visto apenas como uma exigência regulatória, o controle de qualidade tem um objetivo muito mais importante: identificar falhas antes que elas comprometam o resultado de um exame.
Na prática, um programa bem estruturado reduz significativamente o risco de erros analíticos que podem impactar diretamente a rotina transfusional.
Entre os principais problemas evitados estão:
- Utilização de reagentes com perda de desempenho, mesmo dentro do prazo de validade, devido ao armazenamento inadequado ou à quebra da cadeia de frio;
- Resultados falso-negativos, decorrentes da redução da reatividade dos antissoros ou do reagente antiglobulina humana (AGH);
- Resultados falso-positivos, causados por contaminação, alterações físicas dos reagentes ou falhas durante a execução da técnica;
- Liberação de resultados obtidos com equipamentos fora das especificações, como centrífugas ou incubadoras descalibradas;
- Variações entre operadores, reduzidas pela padronização dos procedimentos e pela utilização de materiais-controle.
Mais do que detectar problemas, o controle de qualidade permite agir preventivamente, fortalecendo a confiabilidade dos resultados e contribuindo para uma assistência transfusional mais segura.
Na imuno-hematologia, a confiabilidade de um resultado começa muito antes da leitura de uma reação de aglutinação. Ela é construída diariamente por meio da qualificação dos reagentes, do monitoramento dos processos, da capacitação das equipes e da utilização de controles internos capazes de demonstrar que toda a rotina laboratorial permanece sob controle.
Independentemente da estratégia adotada, utilizando materiais preparados pelo próprio laboratório ou controles comerciais padronizados, o mais importante é que o programa de controle de qualidade seja sistemático, documentado e incorporado à rotina do serviço. Dessa forma, além de atender às exigências regulatórias, o laboratório fortalece a rastreabilidade dos processos, reduz riscos analíticos e contribui para decisões transfusionais mais seguras.
A qualidade não é resultado de uma única etapa, mas da soma de pequenas ações realizadas de forma consistente todos os dias.
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Referências
- Association for the Advancement of Blood & Biotherapies (AABB). Technical Manual. 21st ed. Bethesda: AABB, 2023.
- Associação Brasileira de Hematologia, Hemoterapia e Terapia Celular (ABHH). Manuais e documentos técnicos em Hemoterapia e Imuno-hematologia.
- Brasil. Ministério da Saúde. Imuno-Hematologia Laboratorial. Brasília: Ministério da Saúde, 2014.
- Brasil. Ministério da Saúde. Portaria de Consolidação GM/MS nº 5, de 28 de setembro de 2017. Anexo IV – Regulamento Técnico de Procedimentos Hemoterápicos.
- Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA). Resolução RDC nº 34, de 11 de junho de 2014 (e atualizações vigentes aplicáveis aos serviços de hemoterapia).