A compatibilidade entre doador e receptor não termina nos sistemas ABO e RhD. Atualmente, 401 antígenos eritrocitários são reconhecidos, distribuídos em 49 sistemas de grupos sanguíneos, e parte deles é capaz de induzir a formação de aloanticorpos clinicamente significativos. Entre esses sistemas, Rh e Kell ocupam posição de destaque na prática transfusional, tanto pela imunogenicidade de seus antígenos quanto pela frequência e relevância clínica dos anticorpos produzidos.
A transfusão de hemácias contendo um antígeno ausente no receptor pode desencadear aloimunização eritrocitária. Uma vez formado, o aloanticorpo pode dificultar a obtenção de sangue compatível em transfusões futuras e estar associado a reações transfusionais hemolíticas, inclusive tardias. O problema é particularmente relevante em pacientes submetidos a transfusões repetidas, como aqueles com doença falciforme, talassemias, síndromes mielodisplásicas e outras doenças hematológicas. [1,2]
Essa relevância não é apenas teórica. Em uma população brasileira de pacientes com doença falciforme, por exemplo, 55,17% dos aloanticorpos identificados pertenciam ao sistema Rh e outros 8,62% ao sistema Kell. Um estudo brasileiro anterior também encontrou predomínio marcante: 80% dos aloanticorpos identificados estavam relacionados aos sistemas Rh e Kell. [3,4]
É justamente por isso que diferentes recomendações internacionais utilizam Rh + K como um nível fundamental de compatibilidade além de ABO/RhD. A American Society of Hematology (ASH) recomenda, para pacientes com doença falciforme, compatibilidade profilática para Rh (C, E ou C/c, E/e) e K. A British Society for Haematology também estabelece que, nesses pacientes, as hemácias devem ser compatíveis para Rh e Kell. [1,6]
Fenotipar o doador permite prevenir, e não apenas reagir à aloimunização
Existe uma diferença importante entre identificar um anticorpo depois que ele apareceu e possuir previamente um estoque de hemácias caracterizado que permita selecionar unidades compatíveis.
Os dados que sustentam essa estratégia são expressivos. Na revisão utilizada pela ASH, a incidência agrupada de novos aloanticorpos foi de aproximadamente 1,94 por 100 unidades transfundidas quando a compatibilidade se restringia a ABO/RhD, contra 0,40 por 100 unidades quando as hemácias eram compatibilizadas para Rh e K. Com compatibilidade ainda mais estendida, a incidência foi de aproximadamente 0,25 por 100 unidades. [1]
Outras revisões relatam resultado semelhante: a compatibilização para Rh e K reduz taxas descritas de aproximadamente 1,7–3,9 aloanticorpos por 100 unidades transfundidas para 0,26–0,50 por 100 unidades. [6]
É importante fazer uma ressalva científica: esses números vêm principalmente de populações de alto risco, particularmente pacientes com doença falciforme, e não demonstram que fenotipar todos os doadores, isoladamente, reduzirá nessa mesma magnitude a aloimunização de toda a população transfundida. O benefício sistêmico da fenotipagem universal do doador está, sobretudo, em criar a infraestrutura necessária para que estratégias de compatibilidade antigênica possam ser efetivamente executadas quando indicadas.
Não adianta conhecer o fenótipo do paciente se não conhecemos o estoque
Esse talvez seja o argumento mais importante para explicar a nova regulamentação.
Recomendar que determinados pacientes recebam hemácias compatíveis para C, c, E, e e K só é operacionalmente útil se o serviço conseguir localizar rapidamente unidades com os fenótipos necessários.
A fenotipagem sistemática dos doadores transforma, portanto, o estoque de concentrados de hemácias em um banco de unidades imunologicamente caracterizadas. Isso facilita a seleção de hemocomponentes para pacientes aloimunizados, pacientes com necessidade de compatibilidade profilática e indivíduos com combinações antigênicas menos frequentes.
Essa lógica já aparece nas recomendações internacionais. A ASH ressalta que conhecer perfis antigênicos facilita a investigação de anticorpos e a localização de unidades compatíveis; o guideline atualizado da International Collaboration for Transfusion Medicine Guidelines mantém a recomendação de compatibilidade ABO, RhD, RhCcEe e K em pacientes com doença falciforme e também em pacientes com talassemia submetidos a transfusão. [1, 7]
Há inclusive evidência brasileira de viabilidade. Em estudo com pacientes brasileiras com doença falciforme e doadores afro-brasileiros, uma estratégia de compatibilização profilática C, E e K poderia atender 92,4% dos eventos transfusionais avaliados, reforçando que a caracterização adequada da população de doadores pode tornar protocolos de matching factíveis. [8]
A diversidade brasileira torna essa informação ainda mais relevante
A população brasileira apresenta elevada diversidade genética e importantes diferenças regionais nas frequências dos antígenos eritrocitários. Estudos realizados em diferentes regiões demonstram variação nas frequências de alelos e fenótipos dos sistemas Rh, Kell, Duffy, Kidd, MNS e outros. [9,10]
Isso significa que conhecer sistematicamente o perfil antigênico dos doadores também permite construir, progressivamente, um mapa imuno-hematológico do próprio estoque, em vez de depender da busca e fenotipagem de unidades apenas quando surge um paciente com necessidade específica.
A medida pode ser particularmente relevante para populações com doença falciforme. Diferenças na distribuição de antígenos entre doadores e receptores são reconhecidas como um dos fatores envolvidos na elevada aloimunização observada nesses pacientes.
E por que não fenotipar novamente em toda doação?
Aqui está outro aspecto tecnicamente interessante da Nota Técnica nº 77/2026.
A determinação de C, c, E, e e K deve ser realizada em duas amostras provenientes de duas doações distintas, com resultados concordantes. Depois da confirmação, esse perfil pode permanecer associado ao cadastro do doador e ser utilizado como resultado histórico, sem necessidade de repetição rotineira nas doações subsequentes, desde que identificação, rastreabilidade e integridade dos registros estejam asseguradas.
Essa lógica também encontra paralelo internacional. As orientações britânicas para serviços de sangue admitem fenótipos estendidos confirmados com base em determinações concordantes, inclusive utilizando resultados históricos, desde que a segurança dos dados, metodologia e rastreabilidade tenham sido devidamente asseguradas. [5]
Portanto, a proposta combina ampliação da informação imuno-hematológica com racionalização de recursos: investe-se inicialmente na caracterização e confirmação do doador e, uma vez estabelecido um perfil confiável, essa informação passa a integrar permanentemente seu histórico.
Da lógica reativa para a preventiva
A obrigatoriedade da fenotipagem de C, c, E, e e K representa, assim, mais do que a inclusão de novos testes na rotina dos hemocentros. Ela cria condições para uma mudança de paradigma: de um modelo predominantemente reativo, no qual unidades antigenicamente negativas muitas vezes são procuradas depois da identificação de um aloanticorpo, para uma estrutura progressivamente mais preventiva e orientada por dados, na qual o perfil antigênico do estoque já é conhecido.
Fenotipar os doadores não elimina a aloimunização. Variantes de RH, outros sistemas eritrocitários e fatores próprios do receptor continuam relevantes. Entretanto, conhecer previamente os principais antígenos clinicamente significativos amplia a capacidade de fornecer sangue adequadamente selecionado, agiliza a busca por unidades compatíveis e fornece a infraestrutura necessária para estratégias modernas de prevenção da aloimunização.
Nesse sentido, fenotipar não é apenas conhecer melhor o doador: é conhecer melhor o sangue disponível para transfusão.
A implementação das novas exigências para fenotipagem eritrocitária representa uma mudança importante na rotina dos serviços de hemoterapia, envolvendo adequação de fluxos, metodologias, insumos e processos de confirmação dos resultados.
Nesse momento de transição, a equipe Martell está à disposição para apoiar os serviços de hemoterapia na adequação às novas diretrizes, oferecendo suporte técnico e soluções para a implementação da fenotipagem eritrocitária com segurança, qualidade e eficiência.
Novas exigências, novos processos, mas o mesmo compromisso com a segurança transfusional.
Conte com a Martell.
Referências
- Stella T. Chou, Mouaz Alsawas, Ross M. Fasano, Joshua J. Field, Jeanne E. Hendrickson, Jo Howard, Michelle Kameka, Janet L. Kwiatkowski, France Pirenne, Patricia A. Shi, Sean R. Stowell, Swee Lay Thein, Connie M. Westhoff, Trisha E. Wong, Elie A. Akl; American Society of Hematology 2020 guidelines for sickle cell disease: transfusion support. Blood Adv 2020; 4 (2): 327–355. doi: https://doi.org/10.1182/bloodadvances.2019001143
- Wolf J, Blais-Normandin I, Bathla A, Keshavarz H, Chou ST, Al-Riyami AZ, Josephson CD, Massey E, Hume HA, Pendergrast J, Denomme G, Grubovic Rastvorceva RM, Trompeter S, Stanworth SJ; International Collaboration for Transfusion Medicine Guidelines (ICTMG). Red cell specifications for blood group matching in patients with haemoglobinopathies: An updated systematic review and clinical practice guideline from the International Collaboration for Transfusion Medicine Guidelines. Br J Haematol. 2025 Jan;206(1):94-108. doi: 10.1111/bjh.19837. Epub 2024 Nov 13. PMID: 39535318; PMCID: PMC11739758.
- Leite LE, da Silva FG, Kashima S, Rodrigues ES, Haddad R. RHCE and Kell genotyping and alloimmunization profile in patients with sickle cell disease in the Federal District of Brazil. Hematol Transfus Cell Ther. 2024 Jul-Sep;46(3):261-267. doi: 10.1016/j.htct.2023.05.004. Epub 2023 Jun 15. PMID: 37344342; PMCID: PMC11221260.
- Moreira Júnior G, Bordin JO, Kuroda A, Kerbauy J. Red blood cell alloimmunization in sickle cell disease: the influence of racial and antigenic pattern differences between donors and recipients in Brazil. Am J Hematol. 1996 Jul;52(3):197-200. doi: 10.1002/(SICI)1096-8652(199607)52:3<197::AID-AJH11>3.0.CO;2-D. PMID: 8756087.
- Davis, B.A., Allard, S., Qureshi, A., Porter, J.B., Pancham, S., Win, N., Cho, G., Ryan, K. and the British Committee for Standards in Haematology (2017), Guidelines on red cell transfusion in sickle cell disease. Part I: principles and laboratory aspects. Br J Haematol, 176: 179-191. https://doi.org/10.1111/bjh.14346
- Linder GE, Chou ST. Red cell transfusion and alloimmunization in sickle cell disease. Haematologica. 2021 Jul 1;106(7):1805-1815. doi: 10.3324/haematol.2020.270546. PMID: 33792218; PMCID: PMC8252926.
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