O fim da leucorredução à beira-leito na nova legislação brasileira: o que mudou?

A publicação da Portaria GM/MS nº 11.685/2026 trouxe diversas atualizações importantes para os serviços de hemoterapia brasileiros. Entre elas, uma das mudanças que mais chamou atenção foi a ausência da possibilidade de utilização dos filtros de leucorredução à beira-leito, direcionando a prática para métodos realizados antes do armazenamento dos hemocomponentes, seja por filtros de bancada (bench filtration) ou por sistemas de filtração in-line durante o processamento.

Embora essa alteração possa gerar dúvidas inicialmente, ela representa um movimento consistente com aquilo que a literatura científica internacional já demonstra há muitos anos: o momento em que a leucorredução é realizada influencia diretamente a qualidade biológica do hemocomponente.

 

Por que remover os leucócitos?

Mesmo representando uma pequena fração celular, os leucócitos presentes nos hemocomponentes continuam metabolicamente ativos durante todo o período de armazenamento. Ao longo dos dias, essas células sofrem ativação e degradação, liberando uma série de mediadores biológicos, entre eles:

  • citocinas pró-inflamatórias;
  • quimiocinas;
  • enzimas proteolíticas;
  • micropartículas celulares;
  • fragmentos de DNA e RNA.

Essas substâncias permanecem na bolsa mesmo que os leucócitos sejam removidos apenas no momento da transfusão.

É justamente esse fenômeno que explica por que a simples remoção dos leucócitos no leito do paciente não elimina boa parte dos efeitos biológicos decorrentes da sua permanência durante o armazenamento.

O que a literatura mostra?

Diversos estudos demonstram que a leucorredução pré-armazenamento apresenta vantagens importantes quando comparada à filtração realizada apenas imediatamente antes da transfusão.

Entre os benefícios descritos estão:

  • menor acúmulo de citocinas inflamatórias durante o armazenamento;
  • redução das reações transfusionais febris não hemolíticas;
  • menor aloimunização contra antígenos HLA em pacientes politransfundidos;
  • menor transmissão de vírus associados aos leucócitos, como o CMV;
  • preservação mais adequada da qualidade biológica do hemocomponente.

Um estudo brasileiro publicado em 2025 comparou diretamente pacientes que receberam componentes submetidos à leucorredução pré-armazenamento com aqueles que receberam componentes filtrados apenas no momento da transfusão. Embora as taxas de reações transfusionais tenham sido semelhantes, os autores observaram redução do tempo de internação hospitalar e menor mortalidade hospitalar no grupo que recebeu hemocomponentes leucorreduzidos antes do armazenamento, reforçando os benefícios clínicos da estratégia.

Esses achados reforçam um conceito importante: não basta retirar os leucócitos; é necessário impedir que permaneçam na bolsa durante todo o período de estocagem.

Por que a leucorredução à beira-leito perdeu espaço?

O filtro de beira-leito cumpre adequadamente sua função mecânica de remover leucócitos imediatamente antes da transfusão.

Entretanto, quando utilizado nesse momento:

  • as citocinas já foram produzidas durante os dias de armazenamento;
  • micropartículas e mediadores inflamatórios permanecem no hemocomponente;
  • parte da chamada “lesão de armazenamento” (storage lesion) já ocorreu;
  • os benefícios imunológicos tornam-se menores quando comparados à filtração precoce.

Na prática, o filtro remove as células, mas não remove aquilo que elas produziram ao longo do armazenamento.

Por esse motivo, sociedades científicas e diversos sistemas nacionais de hemoterapia vêm, há anos, priorizando a leucorredução universal pré-armazenamento.

Quais são as alternativas recomendadas atualmente?

A nova regulamentação favorece duas estratégias principais:

Filtração em bancada (bench filtration)

Realizada logo após o processamento do hemocomponente. Permite controle de qualidade, rastreabilidade e padronização do processo.

Filtração in-line

O filtro já faz parte do próprio conjunto de coleta e processamento. Os leucócitos são removidos automaticamente antes do armazenamento, reduzindo manipulações e minimizando riscos operacionais.

Ambas as estratégias apresentam uma grande vantagem: o hemocomponente permanece armazenado já leucorreduzido, impedindo que os leucócitos permaneçam ativos durante os dias de estocagem.

Muito além de cumprir a legislação

A atualização da Portaria GM/MS nº 11.685/2026 não representa apenas uma mudança regulatória.

Ela acompanha a evolução do conhecimento científico e aproxima a hemoterapia brasileira das melhores práticas internacionais, privilegiando estratégias que oferecem maior qualidade biológica aos hemocomponentes e maior segurança transfusional aos pacientes.

Para os serviços de hemoterapia, esse também é um momento oportuno para revisar seus fluxos de processamento, avaliar tecnologias disponíveis e planejar uma transição estruturada para métodos de leucorredução pré-armazenamento.

Como a Martell pode ajudar?

A Martell Produtos Hospitalares acompanha continuamente a evolução da legislação brasileira e das evidências científicas em hemoterapia.

Seu portfólio contempla soluções para leucorredução em bancada e tecnologias utilizadas durante o processamento dos hemocomponentes, permitindo que os serviços adequem seus processos às novas exigências regulatórias com segurança, eficiência e qualidade.

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Referências

  1. Brasil. Ministério da Saúde. Portaria GM/MS nº 11.685, de 2 de julho de 2026. Regulamentos Técnicos Específicos em Hemoterapia.
  2. Silva NDM, Nogueira LS, Nukui Y, Almeida-Neto C, et al. The effect of the leukoreduction filtration moment on the clinical outcome of transfused patients: A retrospective cohort study. Clinics. 2025.
  3. Yazer MH, Triulzi DJ. Universal leukoreduction and transfusion safety. Transfusion Medicine Reviews.
  4. AABB. Standards for Blood Banks and Transfusion Services. Current edition.
  5. Council of Europe. Guide to the Preparation, Use and Quality Assurance of Blood Components. Current edition.