Sistema Diego

Na investigação de anticorpos irregulares, a escolha das hemácias utilizadas na triagem (pesquisa de anticorpos irregulares – PAI ou Coombs indireto) é um fator crítico para garantir a detecção de anticorpos clinicamente relevantes. Ainda que os sistemas ABO e Rh concentrem grande parte da atenção na prática transfusional, existem outros sistemas eritrocitários que, embora menos frequentes, podem ter impacto significativo na segurança do paciente. Entre eles, destaca-se o sistema Diego, frequentemente subestimado na rotina laboratorial.

O sistema Diego compreende antígenos eritrocitários codificados pelo gene SLC4A1, sendo os principais antígenos o Dia (Diego A) e o Dib (Diego B). O anticorpo anti-Dia é considerado clinicamente significativo, podendo estar associado tanto a reações transfusionais hemolíticas quanto à doença hemolítica do feto e do recém-nascido (DHFRN). Trata-se, em geral, de um anticorpo do tipo IgG, com reatividade a 37 °C e fase antiglobulina, o que reforça a necessidade de sua detecção adequada nos testes pré-transfusionais

Historicamente, o antígeno Dia foi descrito com maior frequência em populações indígenas das Américas e em indivíduos com ancestralidade asiática. No entanto, ao contrário do que muitas vezes se assume, o Brasil apresenta um perfil populacional altamente miscigenado, o que torna a presença do antígeno Dia mais relevante do que em populações europeias clássicas. Estudos nacionais já demonstraram a presença do antígeno em diferentes regiões do país, com frequências variáveis, mas suficientes para justificar sua consideração na rotina imuno-hematológica (Novaretti et al., 2000; Castilho et al., 2005).

Esse aspecto traz uma implicação prática importante: a ausência de hemácias Dia positivas nos painéis de triagem pode levar à não detecção de anti-Dia, criando uma falsa sensação de segurança na investigação de anticorpos irregulares. Em outras palavras, o problema não é apenas a baixa frequência do antígeno, mas o fato de que, sem a presença dele no painel, o anticorpo simplesmente não será detectado.

Diretrizes internacionais, como as da AABB e do Council of Europe, reforçam que os painéis de triagem devem conter uma representação adequada de antígenos clinicamente significativos, considerando o perfil populacional atendido pelo serviço. Embora não haja obrigatoriedade universal de inclusão do antígeno Dia em todos os painéis, a literatura aponta que sua inclusão é particularmente relevante em países com maior diversidade genética, como o Brasil.

Na prática, isso significa que ter pelo menos uma hemácia Dia positiva na triagem de anticorpos irregulares pode fazer diferença real na detecção de anticorpos clinicamente relevantes. Essa estratégia aumenta a sensibilidade do teste e reduz o risco de falhas diagnósticas, especialmente em pacientes politransfundidos, gestantes ou com histórico transfusional complexo.

Além disso, com o aumento do acesso a técnicas mais avançadas, como a genotipagem eritrocitária, tem-se reforçado a importância de considerar sistemas menos frequentes, como Diego, na prática clínica. Isso é particularmente relevante em pacientes com múltiplos anticorpos ou com necessidade transfusional crônica, nos quais a compatibilidade estendida pode ser determinante para reduzir riscos transfusionais.

Nesse contexto, a disponibilidade de reagentes e hemácias de triagem adequadamente fenotipadas torna-se um ponto-chave para a qualidade do processo diagnóstico. No Brasil, a Martell disponibiliza, entre outras soluções, hemácias reagentes que incluem expressão do antígeno Dia. A presença desse antígeno na composição dos painéis contribui para ampliar a capacidade de detecção de anticorpos clinicamente significativos, alinhando a rotina laboratorial às necessidades reais da nossa população.

Ao final, falar sobre o sistema Diego é refletir sobre a adequação dos nossos testes à realidade epidemiológica do país. Porque, na imuno-hematologia, aquilo que não está no painel… simplesmente não aparece no resultado.

Referências

Daniels G. Human Blood Groups. 3rd ed. Wiley-Blackwell; 2013.

Reid ME, Lomas-Francis C, Olsson ML. The Blood Group Antigen FactsBook. 3rd ed. Academic Press; 2012.

AABB. Standards for Blood Banks and Transfusion Services. 33ª ed. Bethesda: AABB; 2023.

Council of Europe (EDQM). Guide to the preparation, use and quality assurance of blood components. 20ª ed. 2020.

Novaretti MCZ, et al. Frequency of Diego blood group antigen in Brazilian blood donors. Rev Bras Hematol Hemoter. 2000.

Castilho L, et al. Genetic polymorphisms of blood group systems in Brazilian population. Transfusion Medicine. 2005.