Aquecimento de hemácias: o que sabemos?

O concentrado de hemácias é armazenado sob refrigeração para preservar sua qualidade até o momento do uso. Esse armazenamento em baixa temperatura é essencial para manter a viabilidade do hemocomponente, mas cria uma questão prática importante: em algumas situações clínicas, transfundir hemácias frias pode contribuir para hipotermia, especialmente quando a transfusão é rápida, volumosa ou ocorre em pacientes mais vulneráveis. Por isso, o aquecimento do concentrado de hemácias não deve ser visto como rotina para toda transfusão, mas como uma medida específica, indicada quando há risco real de prejuízo clínico relacionado à infusão de sangue frio.

As principais diretrizes e documentos técnicos convergem em um ponto central: o aquecimento de hemácias é particularmente útil para prevenir complicações associadas à hipotermia induzida pela transfusão. A AABB (Association for the Advancement of Blood & Biotherapies) destaca que os aquecedores de sangue são usados principalmente em cenários de transfusão maciça, trauma com necessidade de reaquecimento do paciente, administração rápida de hemácias e transfusão de troca neonatal. No documento, são citados como exemplos taxas de infusão acima de 50 mL/min por 30 minutos ou mais em adultos e acima de 15 mL/kg/h em crianças. O mesmo material também cita a fase de reaquecimento durante circulação extracorpórea e algumas situações específicas, como presença de autoanticorpos frios clinicamente significativos.

Na prática, isso significa que o aquecimento deve ser considerado principalmente em contextos como hemorragia maciça, trauma, cirurgias de grande porte, transfusões rápidas por acesso central, neonatologia, especialmente em exsanguíneotransfusão, e em pacientes com doença por aglutininas frias ou outras condições em que a exposição ao frio possa piorar hemólise ou fenômenos vasoespásticos. A British Society for Haematology também ressalta que a preocupação maior está na infusão rápida de hemácias retiradas do refrigerador, porque isso pode favorecer hipotermia, arritmias e alterações da coagulação, sobretudo em pacientes cirúrgicos, politraumatizados, neonatos e lactentes pequenos. 

Por outro lado, é importante deixar claro que nem toda transfusão de concentrado de hemácias precisa ser aquecida. A própria AABB afirma que, em transfusões eletivas em velocidade convencional, o aquecimento geralmente não traz vantagem clínica. O guideline britânico vai na mesma direção ao afirmar que, em muitas outras situações, costuma ser suficiente permitir que a bolsa chegue à temperatura ambiente antes da transfusão, desde que isso esteja dentro dos procedimentos institucionais e da cadeia de conservação do componente. Em outras palavras, o aquecimento é uma intervenção de indicação seletiva, e não um passo obrigatório da rotina transfusional. 

Um grupo que merece atenção especial é o dos pacientes com anticorpos frios clinicamente significativos (casos raros), como na doença por aglutininas frias. Nesses casos, a literatura orienta considerar o uso de aquecedor de sangue e manter o paciente em ambiente aquecido durante a transfusão, porque o frio pode favorecer aglutinação e hemólise. O guideline britânico de anemia hemolítica autoimune (AHAI) recomenda considerar aquecimento do sangue na transfusão de pacientes com AHAI por anticorpos frios, embora reconheça que a evidência clínica disponível ainda seja limitada.

Aquecer hemácias exige cuidado técnico. O sangue nunca deve ser aquecido por métodos improvisados, como água morna, micro-ondas, estufas, radiadores ou outras soluções informais. Esse é um ponto enfatizado por diretrizes internacionais, justamente porque o aquecimento irregular pode causar dano térmico às hemácias, hemólise e risco microbiológico. A British Society for Haematology recomenda que o sangue seja aquecido apenas com equipamentos aprovados, especificamente desenvolvidos para essa finalidade, com termômetro visível, alarme e manutenção adequada. 

Os riscos associados ao aquecimento inadequado não são teóricos. A AABB descreve que a lesão térmica pode ocorrer se o equipamento falhar ou for usado fora das instruções do fabricante. Também chama atenção para o fato de que, se o fluxo dentro do aquecedor for interrompido temporariamente, a temperatura do sangue pode subir além do desejado, gerando hemólise discreta.

Ao mesmo tempo, a literatura mostra que o uso correto de aquecedores apropriados é, em geral, seguro para as hemácias. Uma revisão sistemática com metanálise publicada na Transfusion Medicine, por Thomas G. Poder e colaboradores, em um estudo colaborativo do Canadá com a França, concluiu que, em temperaturas de até 43 °C e mesmo em alguns cenários até 45–46 °C, o aquecimento produziu hemólise em proporções clinicamente desprezíveis. Em estudo experimental posterior do mesmo grupo, aquecedores ajustados para 41,5 °C ou 37,5 °C conseguiram aquecer concentrados de hemácias de forma eficaz, e o uso do aquecedor ajustado para 41,5 °C foi considerado provavelmente a melhor escolha para reduzir risco de hipotermia sem gerar hemólise relevante. Esse mesmo trabalho, porém, alerta que o aumento do fluxo por bomba de infusão elevou a hemólise, sobretudo em fluxos mais altos, reforçando a importância da combinação entre equipamento adequado, taxa de infusão e monitoramento.

Esse ponto é importante porque, na rotina, o problema nem sempre é “aquecer ou não aquecer”, mas como aquecer com segurança. O aquecimento deve ser controlado, homogêneo e rastreável. É exatamente nesse contexto que entram equipamentos dedicados, como o Barkey Plasmatherm, distribuído pela Martell. Segundo as informações técnicas do fabricante, trata-se de um sistema destinado ao aquecimento de sangue e concentrado de hemácias, além de outros hemocomponentes e soluções, com processo sem contato direto do produto com a água, recursos de segurança contra sobretemperatura, sensor de umidade para detectar vazamentos, alarmes visuais e sonoros e possibilidade de documentação do processo. Esse tipo de recurso ajuda a padronizar a etapa, reduzir improvisos e aumentar a segurança operacional do serviço.

Do ponto de vista prático, como fazer? O primeiro passo é confirmar se há indicação clínica real para aquecer o concentrado de hemácias. Uma vez indicada a medida, deve-se utilizar apenas um aquecedor aprovado para sangue, seguindo rigorosamente o protocolo institucional e as instruções do fabricante. O hemocomponente deve ser conectado ao sistema apropriado, com conferência da integridade da bolsa, validade, identificação, compatibilidade e parâmetros do equipamento. Durante a transfusão, a equipe deve observar o funcionamento do aquecedor, a temperatura programada, a velocidade de infusão e o estado clínico do paciente. Se houver interrupção prolongada do fluxo, necessidade de troca de equipo ou suspeita de mau funcionamento, a conduta deve seguir o protocolo local e, se necessário, a transfusão deve ser pausada para avaliação.

Além de sistemas como o Plasmatherm, outra solução relevante dentro desse contexto é o Barkey S-line C&G, que se destaca por ser um equipamento projetado para o aquecimento controlado e seguro de sangue e hemocomponentes diretamente durante a transfusão. Trata-se de um aquecedor “in-line”, ou seja, acoplado ao sistema de infusão, permitindo que o concentrado de hemácias seja aquecido de forma contínua até temperaturas próximas à fisiológica (≈37 °C), mesmo em diferentes velocidades de fluxo. Esse tipo de tecnologia é especialmente útil em cenários de transfusão rápida, terapia intensiva e emergência, nos quais a manutenção da temperatura do hemocomponente ao longo da infusão é fundamental para prevenir hipotermia. 

O sistema utiliza tecnologia de aquecimento seco, sem contato com água, o que reduz o risco de contaminação e facilita a rotina de limpeza e manutenção. Além disso, conta com sensores de temperatura, mecanismos de segurança contra sobreaquecimento e alarmes, garantindo maior rastreabilidade e confiabilidade no processo. Dentro da prática transfusional moderna, dispositivos como o S-line C&G contribuem para padronizar o aquecimento de hemocomponentes, minimizando variações operacionais e aumentando a segurança tanto para o paciente quanto para a equipe assistencial.

Também é importante não confundir aquecimento do componente com quebra inadequada da cadeia térmica. O fato de uma transfusão eventualmente precisar de sangue aquecido não autoriza deixar a bolsa fora das condições corretas de armazenamento por tempo indevido. As hemácias continuam dependentes de controle rigoroso de temperatura até o momento do uso, e o aquecimento deve ocorrer como parte do processo transfusional, com equipamento adequado, e não por exposição informal à temperatura ambiente ou a fontes externas de calor.

Em resumo, o aquecimento de concentrado de hemácias é uma ferramenta valiosa, mas de uso criterioso. Ele faz mais sentido quando há risco aumentado de hipotermia ou quando a condição clínica do paciente, como presença de anticorpos frios, torna desejável evitar a infusão de sangue refrigerado. O benefício não está em “aquecer por aquecer”, mas em aplicar a técnica certa, no paciente certo, com o equipamento certo. Quando realizado com dispositivos desenvolvidos para esse fim, com controle de temperatura, alarmes e processo padronizado, o aquecimento tende a ser uma medida segura e útil dentro da prática transfusional moderna.

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Referências

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