Soro de Coombs: história, importância e aplicações na Imuno-Hemato

O Soro de Coombs, também conhecido como soro antiglobulina humana, é um dos reagentes mais importantes da imuno-hematologia moderna. Ele revolucionou a forma como detectamos anticorpos que não causam aglutinação visível, permitindo identificar tanto anticorpos livres no soro quanto anticorpos já ligados às hemácias.

Como surgiu o Soro de Coombs?

O teste foi desenvolvido na década de 1940 por Robin Coombs, Arthur Mourant e Robert Race, pesquisadores britânicos que buscavam uma forma de detectar anticorpos “incompletos” (IgG) que não promoviam aglutinação direta.
O grande avanço dessa descoberta foi possibilitar:

  • a investigação de anticorpos clinicamente significantes,
  • o diagnóstico de doença hemolítica do feto e do recém-nascido (DHFRN),
  • a pesquisa de hemólise autoimune,
  • e a segurança transfusional como conhecemos hoje.

Desde então, o Teste de Coombs – direto e indireto – tornou-se um pilar da prática transfusional.

Coombs Direto (TAD – Teste de Antiglobulina Direto)

Detecta anticorpos ou complemento já ligados à hemácia do paciente.

É utilizado para investigar algumas doenças ou complementar um estudo imuno-hematológico:

  • anemia hemolítica autoimune,
  • reações transfusionais,
  • doença hemolítica perinatal,
  • sensibilização medicamentosa.

O TAD identifica o fenômeno in vivo: o anticorpo já está presente na superfície da hemácia.

 Coombs Indireto (TAI – Teste de Antiglobulina Indireto)

Detecta anticorpos IgG livres no soro capazes de reagir com hemácias-teste.

É utilizado para:

  • PAI – Pesquisa de Anticorpos Irregulares,
  • provas cruzadas,
  • identificação de anticorpos clinicamente significantes (painel de hemácias),
  • avaliação pré-natal (aloimunização materna).

O TAI identifica o fenômeno in vitro: o anticorpo do soro reage com hemácias e o soro de Coombs possibilita a visualização dessa ligação.

Como o Soro de Coombs é utilizado hoje?

O princípio permanece o mesmo, mas a técnica evoluiu:

1) No método em cartão (gel)

O soro antiglobulina já está fixado na matriz do gel, o que torna o processo mais padronizado e minimiza variações técnicas.
Após incubação, as hemácias que estão sensibilizadas ficam retidas na coluna do gel.

2) No método em tubo

É necessário adicionar o soro de Coombs após a etapa de lavagem das hemácias sensibilizadas.
É uma técnica eficiente, mas depende mais do operador e requer controle rigoroso de lavagem para evitar falsos negativos.

Ambos os métodos continuam em uso no mundo todo, com o gel se destacando pela reprodutibilidade.

Monoespecífico x Poliespecífico: qual é a diferença?

O soro de Coombs pode ser formulado para detectar diferentes classes de imunoglobulinas e frações do complemento.

Monoespecífico

Contém anticorpos direcionados para um único alvo, como: Anti-IgG, -IgA, -IgM, -C3c, -C3d e -C4.

Ele permite uma análise mais direcionada, especialmente útil em:

  • investigação de hemólise autoimune,
  • diferenciação entre IgG e complemento no TAD,
  • estudos aprofundados de mecanismos imunes.

Poliespecífico

Geralmente combina anti-IgG + anti-C3.
É o mais utilizado na rotina para TAD, porque aumenta a chance de detectar qualquer sensibilização significativa na hemácia.

Por que o soro de Coombs continua essencial?

Porque ele identifica o que não conseguimos ver a olho nu.
Os anticorpos IgG e as frações do complemento podem estar presentes em títulos baixos, mas ainda assim causar:

  • hemólise,
  • reações transfusionais,
  • aloimunização,
  • doença hemolítica neonatal.

O soro de Coombs é o elo que conecta essas reações imunológicas ao diagnóstico laboratorial.

Ele continua sendo, desde sua invenção, a base da pesquisa e identificação de anticorpos clinicamente significantes — e segue absolutamente indispensável para a segurança transfusional.